terça-feira, 26 de abril de 2011

REBECCA LOLOSOLI –UMOJA ALDEIA DA LIBERDADE


Por Walter Passos
, Historiador,Panafricanista,
Afrocentrista e Teólogo.
Pseudônimo: Kefing Foluke.
E-mail: walterpassos21@yahoo.com.br

Msn:kefingfoluke1@hotmail.com

Skype: lindoebano

Facebook:
Walter Passos.




Conforme os costumes dos Samburu do Quênia, meninas são iniciadas no “ritual de passagem” onde ocorre a retirada do clitóris, na preparação para o casamento, geralmente com homens bem mais velhos. Igualmente, Rebecca Satta Lolosoli foi mutilada aos 15 anos de idade, nos moldes tradicionais das suas antepassadas.

Clique Aqui e Leia mais sobre Mutilação Genital Feminina.


FEMALE GENITAL MUTILATION AND THE SAMBURU TRIBE



A vida das mulheres Samburu, de acordo com a tradição, deve ser integralmente submissa ao pai e ao esposo. Elas constroem as habitações, ordenham as vacas, catam lenha, buscam água em grandes distâncias, cuidam dos filhos e preparam as refeições, conforme relato da própria Rebecca. Por sua vez, os homens são guerreiros tradicionais, cuidam dos rebanhos de gado, das ovelhas e dos camelos e da proteção da comunidade.

A vida de Rebeca Lolosoli passou por uma mudança drástica, após ser atacada e quase estuprada por soldados ingleses, sediados no Quênia.

A VILA DE REFÚGIO: UMOJA


Em suaíli, Umoja significa unidade. Muitas das 64 mulheres que lá vivem são sobreviventes de estupro. Os estupradores foram soldados britânicos que estavam estacionados nas proximidades, há mais de 50 anos.

“Vestindo uniformes verdes, misturados com as árvores, enquanto as mulheres recolhiam a lenha, os soldados saltavam da floresta para estuprá-las, rindo como se fosse um jogo”, conta Lolosoli.

As mulheres estupradas foram ridicularizadas e expulsas das aldeias por seus maridos, algumas foram presas por tentar sobreviver vendendo cerveja caseira, ao ser expulsas e tentar sobreviver sozinhas nas florestas do Quênia, muitas foram comidas por hienas.

Revoltando-se, Rebecca, discursou nas reuniões dos Samburu contra aquelas atitudes, reivindicando os direitos das mulheres, que violentadas pela ineficaz proteção dos homens - responsáveis tradicionalmente por conferir a proteção às aldeias - não possuíam sequer apoio de sua comunidade, ao contrário delas foram expulsas. Em consequência, foi espancada por quatro guerreiros Samburu, durante uma viagem do seu marido. Ao sair do hospital, retornou para o lar e relatou o caso a seu esposo que nada fez. Não tendo apoio do próprio companheiro e percebendo que se nada fizesse seria assassinada, Rebecca resolveu dar novos rumos a sua própria vida e de inúmeras outras mulheres vítimas do patriarcalismo e das injustiças, fundando a vila UMOJA em 1991, apesar de todas as dificuldades.

As mulheres lideradas por Rebecca Lolosoli travaram uma árdua luta contra as autoridades britânicas para que se fizesse justiça pelas violências sofridas, várias delas repetidamente, por soldados britânicos durante exercícios militares no Quênia, nos anos 80 e 90. Como prova, algumas exibiam seus filhos mestiços. No final, venceram a batalha judicial.

"Nossa cidade se transformou em um abrigo", diz Lolosoli. Mulheres e meninas que fogem do casamento forçado, ou são vitimas do ostracismo após serem estuprada, ou tentando salvar-se da mutilação genital feminina, vão à Umoja para a segurança. Filhos são bem-vindos, contanto que eles estejam dispostos a seguir as regras da aldeia e não tentem dominar as mulheres seguindo o combatido exemplo dos demais Samburu.

As mulheres vivem ali em conjunto e criaram um centro cultural e um camping para os turistas que visitam a vizinha Reserva Nacional de Samburu. Com os benefícios obtidos, elas conseguiram replantar a vegetação do local e inclusive se permitem contratar os serviços de vários homens para transportar lenha, que tradicionalmente no Quênia é um trabalho executado por mulheres.

UMOJA, LE VILLAGE INTERDIT AUX HOMMES - Bande-annonce (français)




As mulheres da Vila Umoja sobrevivem da fabricação do artesanato samburu: pequenos colares, pulseiras e ornamentos feitos de miçangas. Apesar da vida difícil e dos olhares desconfiados das outras comunidades samburu, estas mulheres, vítimas de violência do tradicionalismo patriarcal samburu, reuniram-se para viver em paz, longe dos opressores, livres e com dignidade. Umoja é hoje um povoado que tem uma fama tão sólida que mulheres de todo o Quênia vão até ali em busca de ajuda ou simplesmente de conselhos.


Rebecca Lolosoli ganhou o direito ao divórcio e outras trezentas mulheres se reuniram para comemorar.


"Muitas das nossas mulheres morreram em silêncio, sem direitos", disse Rebeca Lolosoli, e continuou: "Queremos mostrar às mulheres que elas também são humanas, que podem fazer algo para si, e que elas podem cuidar de si mesmas e de seus filhos."

quarta-feira, 20 de abril de 2011

NINA SIMONE – UMA DIVA PAN-AFRICANISTA


Por Walter Passos
, Historiador,Panafricanista,
Afrocentrista e Teólogo.
Pseudônimo: Kefing Foluke.
E-mail: walterpassos21@yahoo.com.br
Msn:kefingfoluke1@hotmail.com
Skype: lindoebano





Completar-se-á no dia 21 de abril, oito anos da morte de uma das mais importantes mulheres pretas, agraciada com uma das mais belas vozes da diáspora, que não se calou e lutou contra o racismo : Nina Simone, seu nome tem um significado especial, Nina vem de pequena e Simone de uma atriz da qual era fã: Simone Signoret.

Nascida em 21 de fevereiro de 1933, em Tryon, Carolina do Norte, era a sexta filha dos oitos filhos de Mary Kate e John D. Waymon, um pastor metodista. O seu nome de nascimento foi Eunice Kathleen Waymon. A sua casa estava sempre cheia de música, e ela aprendeu a tocar piano no início de sua infância.

Foi a sua voz de contralto, seu timbre rico e sua interpretação distinta dos padrões, blues e composições de jazz, que a levou à fama na música, apelidada de "Alta Sacerdotisa do Soul", é conhecida como um das mais talentosas cantoras, compositoras e pianistas de seu tempo, se tornou parte integrante do movimento dos direitos civis e depois abraçou o movimento Black Power.

As canções de Nina Simone foram adotadas pelo movimento dos direitos civis, incluindo hinos como Backlash Blues, Old Jim Crow, Four Women e To Be Young, Gifted and Black. A última foi composta em homenagem a sua amiga Lorena Hansberry e se tornou um hino para o poder crescente do movimento negro.

Nina analisa de forma contundente em Four Women a situação das mulheres pretas.

Nina Simone - Four Women



A primeira é Tia Sara, representa a escravidão das africanas na América, mulher forte e resistente.

"Minha pele é negra
Meus braços são longos
Meu cabelo é de lã
Minhas costas são fortes
Forte o suficiente para tirar a dor
Tem sido infligida novamente e novamente
O que eles me chamam
Meu nome é tia Sarah
Meu nome é tia Sarah"

A segunda é apelidada de “Siffronia”, uma mulher mestiça forçada a viver “entre dois mundos”, uma mulher oprimida , e destaca o sofrimento do povo preto nas mãos de pessoas brancas em posições de poder.

"Minha pele é amarela
Meu cabelo é longo
Entre dois mundos
Eu pertenço
Meu pai era rico e branco
Ele forçou minha mãe numa noite
O que eles me chamam
Meu nome é siffronia
Meu nome é siffronia"

A terceira mulher é uma prostituta que se refere à canção como "uma coisa doce".

"Minha pele está bronzeada
Meu cabelo é bom,
Meus quadris convidá-lo
E meus lábios são como o vinho
Garotinha sou eu?
Qualquer um que tenha dinheiro para comprar
O que eles me chamam
Meu nome é coisa doce
Meu nome é coisa doce"

A última é uma mulher amargurada e volátil, um produto das gerações de opressão e sofrimento cometidos pela sociedade racista e suportados pelo povo africano nas Américas.

"Minha pele é marrom
E a minha forma é difícil
Eu vou matar a primeira mãe que eu vejo
Porque minha vida tem sido muito áspera
Estou terrivelmente amarga nestes dias
Porque meus pais eram escravos
O que eles me chamam
Meu Nome é Pêssegos."

Outra bela canção de Nina foi Mississippi Goddamn, escrita na década de 1960, em resposta ao assassinato de Medgar Evers no Mississipi e quatro garotas em um bombardeio de uma igreja preta no Alabama.

Ela canta "Tudo que eu quero é a igualdade para a minha irmã, meu irmão, meu povo e eu", continua: "Ah, mas este país está cheio de mentiras.



Em Backlash Blues, Ela canta:

"Você levanta os meus impostos, congela o meu salário
E manda meu filho para o Vietnã...
Você me dá casas de segunda classe
E escolas de segundo classe..."



TO BE YOUNG, GIFTED AND BLACK



"Ser jovem, talentoso e negro,
que precioso sonho lindo
Ser jovem, talentoso e negro,
Abra seu coração para o que quero dizer

Em todo o mundo sabe
Há bilhões de meninos e meninas
Quem é jovem, talentoso e negro,
E isso é um fato!

Jovem, talentoso e preto
Temos de começar a dizer aos nossos jovens
Há um mundo esperando por você
Esta é uma missão que está apenas começando

Quando você se sente realmente mal
Sim, há uma grande verdade que você deve saber
Quando você é jovem, talentoso e preto
Sua alma está intacta

Jovem, talentoso e preto
Como eu desejo saber a verdade
Há momentos em que eu olhe para trás
E eu sou assombrado por minha juventude

Ah, mas a minha alegria de hoje
Será que todos nós podemos ter orgulho de dizer
Ser jovem, talentoso e preto
É onde se deve estar"

OLD JIM CROW



"Old Jim Crow
Está aqui há muito tempo
Começou as obras do diabo
Até o morto e enterrado
Old Jim Crow
Sim, você não sabe
Está tudo acabado agora
Está tudo acabado agora

Old Jim Crow
Você sabe que é verdade
Quando você fere meu irmão
Você me machucou demais
Old Jim Crow você não sabe
Está tudo acabado agora"

Leia mais sobre o que foi o Jim Crown, clicando aqui.



WHY (THE KING OF LOVE IS DEAD)



"O que vai acontecer agora? Em todas as nossas cidades?
Meu povo está subindo, pois eles estão vivendo em mentiras.
Mesmo que tenha que morrer
Mesmo se tiver que morrer no momento em que eles sabem que é a vida
Mesmo nesse momento que você sabe que é a vida
Se tiver que morrer, está tudo certo
Porque você sabe que é a vida
Você sabe o que é liberdade para um momento de sua vida

Mas ele tinha visto da montanha
E ele sabia que não podia parar
Sempre que vivem com a ameaça de morte à frente
Gente é melhor você parar e pensar
Todo mundo sabe que estamos à beira
O que vai acontecer, agora que o rei está morto?

Todos nós podemos derramar lágrimas, não vai mudar nada
Ensine o seu povo: Será que eles vão aprender?
Você deve sempre matar com queima e queima com armas
E matam com armas de fogo e queimar - você não sabe como nós temos que reagir?

Mas ele tinha visto da montanha
E ele sabia que não podia parar
Sempre que vivem com a ameaça de morte à frente
Gente é melhor você parar e pensar
Todo mundo sabe que estamos à beira
O que vai acontecer, agora que o Rei do amor está morto?"

A sua vida foi de muitas lutas dentro dos Estados Unidos da América e o racismo fez com que deixasse aquele país, indo viver em diversos locais do planeta, inclusive na Libéria, morreu na França em 2003 e suas cinzas foram espalhadas por países africanos.

Suas músicas continuam a ser o baluarte do jazz e do blues ao redor do mundo, fornecendo a muitos cantores e grupos, inspirando gerações de grande talento, de Aretha Franklin até Índia Aire e Norah Jones.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

FOR COLORED GIRLS (FILME) - MULHERES PRETAS E AS VIOLÊNCIAS COTIDIANAS


Por Ulisses Soares Passos, Bacharel em Direito (Estácio de Sá), Acadêmico de Línguas Estrangeiras (Universidade Federal da Bahia - UFBA.
Presidente do Conselho Nacional de Negras e Negros Cristãos, seccional Bahia - CNNC/BA.
Pseudônimo: Aswad Simba Foluke.
E-mail: ulisses_soares@hotmail.com




For Colored Girls Who Have Considered Suicide When the Rainbow is Enuf (Para Mulheres Pretas que Têm Considerado o Suicidio Quando o Arco-íris é suficiente) um filme baseado em peça de teatro homônima de 1975, de autoria da americana Ntozake Shange,na qual são mostrados diversos poemas de mulheres sem nome, unidas pelos problemas cotidianos enfrentados das mulheres pretas, que falam sobre amor, aborto, estupro, violência, religiosidade e abandono.

TRAILLER DO FILME (EM INGLÊS)


O filme retrata a vida de nove mulheres afro-americanas que têm suas vidas unidas em determinado momento, todas enfrentando problemas muito comuns às mulheres pretas na sociedade contemporânea. Embora, o texto original seja de 1975 seu conteúdo continua inerte, assim como a degradação vivenciada pelas mulheres pretas.

Longe de se pretender trazer uma análise esmiuçada do conteúdo do longa, podemos elencar diversos fatores que o legitimam, fazendo da sua real abordagem, uma das melhores, senão a melhor, cinematografia acerca das mulheres pretas, seus desafios e opressões dentro de uma sociedade machista, racista e putrefata pelas conseqüências de séculos de escravização.

Seria nefasto eleger partes a comentar, pois do início ao fim podemos perceber o quão presente é sua contextualização dentro da nossa vivência. Os diversos recortes apresentados pelo filme descrevem com perfeição as mazelas enfrentadas e compartilhadas em nossa comunidade: ausência de planejamento familiar, aborto clandestino, violência doméstica, estupros, proliferação do HIV etc.

Nesse sentido, destacamos dois trechos do filme que retratam, respectivamente, com singularidade única, o aborto clandestino e o extremo da violência familiar pelos homens pretos cumulada com o consumo de álcool, ambos bastante comuns dentro de nossa comunidade.

ABORTO CLANDESTINO (EM PORTUGUÊS)

video

VIOLÊNCIA FAMILIAR (EM PORTUGUÊS)

video

Outrossim, é necessário destacar a aplicabilidade irrestrita desse filme no processo de conscientização das mulheres pretas, principalmente às jovens, suscetíveis a esses embates, independente da classe social que ocupem, pois o que as unem é a sua condição de mulher preta, como bem restou demonstrado no filme.

Além disso, o longa também destaca o papel fundamental dessas mulheres na construção da sociedade, retratando trabalhos comunitários de resgate e educação de outras mulheres, representantes do sustento familiar, gerência de grandes empresas, estudantes, garçonetes, enfim, mulheres pretas independentes, autônomas, repletas de sonhos, com papéis estruturantes dentro da sociedade.

Por fim, um filme a ser difundido dentro da nossa comunidade, como o retrato de nós mesmos, percebidos de forma ímpar por Ntozake Shange, cujo conhecimento se torna obrigatório para nossa formação enquanto homens e mulheres pretas.

Publicação dedicada a TODAS as mulheres pretas violentadas cotidianamente pelo Estado, pelo machismo, pelo racismo e por quem mais deveria amá-las: os homens pretos.

Download do filme em português: http://www.fileserve.com/file/GGMD87H

PRETAS POESIAS

PRETAS POESIAS
Poemas de amor ao povo preto: https://www.facebook.com/PretasPoesias